Um novo exemplo de Sinopse

Caros Alunos,

 

Em aula li a sinopse do filme "To Have anda Have Not", que deve estar diponível no moodle da vossa colega Ana Rita Babo. Decidi, entretanto, deixar aqui no blog um outro exemplo de sinopse, esta extraída de uma Oficina de Roteiro ministrada por Gabriel Garcia Márquez na Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba.  

 

Quando lerem o texto, tentem perceber como está visualmente descrito, que conseguem verem o que estão a ler. Isto é que é importante, que vocês consigam fazer o mesmo com a vossa Sinopse/Desenvolvimento da Ideia.

 

 

 

Ladrão de Sábado

 

 

Na noite de um sábado, Hugo, que só rouba nos fins de semana, entra numa casa. Ana, a dona de casa, uma mulher bela que tem trinta anos e também uma insônia sem remédio, descobre Hugo em plena ação: flagrante total. Ameaçada por uma pistola, a mulher entrega todas as jóias e coisas de valor, e pede ao ladrão que não se aproxime de Pauli, a filha de três anos. Acontece que a menina vê o ladrão, e ele a conquista com alguns truques de mágico. Hugo pensa: "Por que ir embora correndo, se aqui está tão bom?!". Poderia ficar o fim de semana inteiro e aproveitar a situação, pois o marido - ele sabe porque vigiou antes - só volta da sua viagem de negócios na noite de domingo. O ladrão não pensa muito, calça os chinelos do dono da casa e pede a Ana que cozinhe alguma coisa, que tire vinho da adega e ponha alguma música para jantar, porque sem música não dá para viver.

 

Ana, preocupada com Pauli, fica pensando, enquanto prepara o jantar, em um jeito de arrancar o sujeito de casa. Mas não pode fazer muita coisa, porque Hugo cortou os fios do telefone, a casa fica afastada, é noite, e ninguém vai passar por ali. Durante o jantar, o ladrão, que durante a semana é vigia em um banco, descobre que Ana é a apresentadora de seu programa de rádio favoritivo, o programa de música popular que escuta todas as noites, sem falta. Hugo é seu admirador, e enquanto escutam Benny Moré cantando Como fue, falam de música e de músicos. Ana se arrepende de ter posto fora do ar, pois ele se comporta com tranquilidade e não tem a menor intenção de feri-la ou violentá-la. Mas agora é tarde: o remédio para dormir já está no copo e o ladrão está bebendo, feliz da vida. Só que houve um tremendo engano: quem toma o copo com o remédio para dormir é a própria Ana, que cai num sono profundo.

 

Na manhã seguinte, Ana desperta em seu quarto, completamente vestida e muito bem abrigada por um cobertor. No jardim, Hugo e Pauli brincam, depois de um bom café da manhã. Ana fica surpresa ao ver como os dois se dão bem. Além disso, adorou o jeito daquele ladrão preparar o café da manhã. E, pensando bem, o tal ladrão é bastante atraente. Ana começa a sentir uma estranha felicidade.

 

Nesse momento, passa por ali uma amiga e Ana, convidando-a para correr um pouco. Hugo fica nervoso, mas Ana inventa que a menina está adoentada e rapidamente despede a amiga. Assim, os três ficam juntos, para desfrutar do domingo. Hugo conserta as janelas e o telefone, que quebrou na noite anterior, e assovia. Ana nota que ele dança muito bem, ela que adora dançar o dazón, um ritmo que a fascina, e nunca tem com quem. le a convida, e os dois se encaixam tão bem que ficam dançando até o meio da tarde. Pauli os observa, e aplaude, e finalmente adormece. Exaustos, os dois acabam estendidos num sofá da sala.

 

Agora, é um Deus-nos-acuda: está na hora de o marido voltar. Embora Ana resista, Hugo acaba devolvendo a ela quase tudo que havia roubado, dá alguns conselhos sobre como impedir que ladrões entrem na casa, e se despede das duas com um bocado de tristeza. Ana o vê afastar-se. Quando Hugo está quase desaparecendo, ela o chama, aos gritos. E quando Hugo regressa, ela diz, olhando fixo para os olhos dele, que no próximo fim de semana seu marido vai viajar de novo. O ladrão de sábado vai embora feliz, dançando pelas ruas do bairro, enquanto a noite cai.

 

Texto extraído do livro: Oficina do Roteiro de Gabriel Garcia Márquez: Como Contar um Conto. Gabriel Garcia Márquez [et al.]; tradução de Eric Nepomuceno - 4ª reimpressão - Rio de Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001.

publicado por cristinasusigan às 13:45